quarta-feira, 30 de dezembro de 2015

UM CONTO DE NATAL

Idalinda Pereira

Sofia, nascida num palacete, rodeada de criados e de todas as mordomias, sem irmãos para partilhar, sentia-se triste por não ter amigos com quem brincar.

Quando um dia estava no seu jardim, desfolhando um malmequer, vê passar na rua um miúdo mal vestido e de sapatilhas rotas, mas, nos seus olhos, havia um brilho que pareciam duas estrelinhas… E Sofia, a quem nada era negado, convidou-o para entrar no seu jardim. O garoto aceitou e os dois deliciaram-se com as brincadeiras inventadas e impregnadas de travessuras.

- Como te chamas? - perguntou Sofia.
- Chamo-me João - respondeu o miúdo.
- Onde moras?
- Não tenho casa.
- Então onde dormes?
- O dono da quinta tem uma cabana onde dorme uma vaca, um burro e algumas ovelhas. Durmo no meio delas, que vigiam o meu sono e me aquecem.

Sofia ficou triste por o seu amigo ser tão pobre.
- O Natal está a chegar, vais ter prendas? - perguntou Sofia.
- Nunca tenho prendas - respondeu João.
Ouvem-se as três pancadas do sino da torre. João despede-se da sua amiga e vai caminhando por entre as árvores nascidas e plantadas ao acaso, em direcção ao seu aconchego.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Reencontro com a Esperança

Teresa Morais e Albertina Vaz ©2015,Portugal


Os olhos fitavam os olhos, sem reação. Gostava de ter o poder de ver através deles. Em que estaria a pensar? Oxalá o verbalizasse, que raio. Alegre por o rever? A odiá-lo? A porta continuava entreaberta, mas o braço em riste impedia a passagem.
O frio doía nos ossos. A noite acabara de se instalar. Era véspera de Natal. Um Natal que ansiava celebrar em paz, sem um permanente estado de alerta, sem o medo a roer-lhe as entranhas, sem ouvir tiros e detonações constantes, sem se defrontar, constantemente, com torturas, mortes e destruição, e a poder assumir, abertamente, a sua fé cristã sem receio de represálias.
O braço em riste continuava a barrar-lhe a passagem. Amal sorriu, tristemente. Tornara-se um estranho para o seu amigo Samir, porventura um intruso ou um ladrão, a seus olhos. E não teriam sido os meses, longos como o arrastar daquela absurda guerra, sem notícias um do outro e vividos em dois países diferentes e distantes, que seguravam o braço de Samir – Amal percebeu que estava irreconhecível: a extrema magreza, a longa barba a cobrir-lhe o rosto emaciado, os olhos cansados e tristes, os ombros descaídos, vergados ao peso da sua história recente e dolorosa, na sua amada e distante Síria. O frio doía-lhe nos ossos, a frieza do olhar de Samir doía-lhe no coração.
Correram-lhe lágrimas pelo rosto – a dor do reencontro, que sonhara diferente, misturava-se com a exaustão que atingira pela longa e penosa viagem até àquele país de uma Europa quase insuspeitada, o seu destino de recomeço, de esperança, de fraternidade, de paz.
Pela mente, passavam-lhe, numa sucessão vertiginosa de imagens, as distâncias que percorrera até os pés lhe sangrarem, a fome e o cansaço que sentira, a desconfiança, e até ódio, que lera em muitos olhares, finalmente a ajuda humanitária a assegurar-lhe o essencial.
Saíra da sua outrora bela, mas agora destruída cidade natal de Alepo, em Agosto, pela calada da noite, com o temor por bagagem, e transpusera as montanhas até à Turquia. Atravessara o Egeu, sem lhe ver o azul das águas, num frágil bote, apinhado de vontades e de esperança, e chegara à Grécia. De comboio, autocarro e a pé passara por países com nomes estranhos e impronunciáveis – Macedónia, Sérvia, Croácia, Hungria, Áustria, e em Paris se cruzara, por mero acaso, com um conterrâneo que lhe dera a morada de Samir.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

QUANDO EU PARTIR

Maria Celeste Salgueiro 

Se recorde de mim

Quando eu partir
Eu sei que vou deixar
Janelas por abrir,
Coisas inacabadas
Que para meu pesar
Não tiveram um fim,
Ficando mergulhadas
Em denso esquecimento.
Porém no meu jardim
Tudo continuará
Como era antigamente:
A velha cameleira
De novo vai florir
Em cada primavera;
As flores de buganvilia
Vão abraçar o muro
Todo em branco caiado,
Lançando o seu perfume em todo o lado;
As pombas a arrulhar
Vão fazer o seu ninho no beiral.
Tudo será igual.
Só eu lá não estarei
Sentada no meu banco.
Tantas recordações
Voando pelo ar!
Talvez meu pensamento
Lá fique a vaguear
Pelas áleas do jardim.
Talvez por mero acaso
Alguém que por lá passe
Se recorde de mim!...

Maria Celeste Salgueiro ©2015,Aveiro,Portugal

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

FÁBULA DA RATAZANA

Vitor Sousa 


Quatro da manhã.
O mordiscar da chuva nas telhas de barro criam uma sonoridade surda e embaladora que condiciona “o levantar” do Manel.
A farinha reclama a carícia das mãos e o forno já se impacienta com a chegada do pão na ânsia de o tornar dourado e estaladiço.
- Toca a levantar, Manel, dizia ele, de si para si.
Alem disso, constou-se que o doutor trazia um escrito novo, que prometeu ler em voz alta em primeira estância na padaria.
O sol esboçava já os primeiros ensaios de luz entre as decrepitas chaminés da velha fábrica de cerâmica que destronava o horizonte.
É um circo de vaidades...
Uma leve brisa varria as folhas dormentes do chão e o doutor, depois de uma leve pausa, meteu mão ao punho da porta e entrou.
Olhar discreto, franzino, semblante camiliano, bigode farto e tinto de fumo.
Após um tímido bom dia, inspira, rebusca um eco nas entranhas da alma e sem demora pega no papel que lê enfático de mão tremula:
- Ora, lá vai…
A política, na sua prática actual, é um manifesto de comportamento primário e mesquinho, para privilegiar o ego e o grupo.
Uma versão simplista de comportamento tribal, alheada das carências e necessidades urgentes de uma nação inteira.
É um circo de vaidades e veleidades obscuras.
Alegam-se laivos de importância desmedida na glorificação do ego.
Nada os detêm ao abrigo de uma qualquer legitimidade, de devassar e espezinhar a dignidade de um povo.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Lamento muito, mas soubeste-me a pouco

Albertina Vaz 

Encontrei-a num tempo frágil, quando a vida parecia ter quebrado todas as cordas e amarras que a prendiam a um ciclo que quis terminar. Falava-me de penas, de sonhos perdidos, de aves sem asas e de imagens sem cor. Falava-me de um espaço em que se sentira presa e de asas que batiam sem voar. Contava-me, minuto a minuto, a caminhada que não fizera no dia em que se prendera – sem o desejar – a uma estrada que não andava e a imobilizara entre o novo e o sol nascente.

Queria ser escutada – e falava como se eu não estivesse ali. Ouvia-a sofregamente como se o deserto – ali tão perto – paralisasse uma nuvem de sombras que não sabia ou não queria tornar reais. Sentíamos o esvoaçar da passarada à nossa volta. Quis apoiar aquela mulher que sentia a chuva a molhar-lhe o rosto e o sol a tisnar-lhe a pele. Outra vez.
Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.

Pediu-me uma mão, um ombro para chorar, uma canção para recordar. E fizemos longas caminhadas ao nascer do sol, quando a brisa chegava e as confidências se enredavam num mar de luz e cor, quando tudo parecia ter parado e o mar se desmanchava em ondas de areia. Fui uma voz que escutava, um livro que se abria, um som que se irmanava. E percebia-a a renascer. Dei-lhe tempo e respeitei o seu desassossego. Quis vê-la a voar e amei o silêncio da minha voz.

O tempo, que tudo sara e tudo esquece, fez com que, um dia, me sentisse a mais e dei-lhe espaço para se revelar – aos outros e a mim.

Foi então que desvendei uma face escondida e alguém que realmente desconhecia – senti que uma flor se desfolhava e as pétalas caiam, como lágrimas colhidas em pingos de sal. Vi uma imagem encoberta, feita de raiva e ambição, espezinhando quem, ao seu lado, lhe estendia a mão. Deixou de sorrir – ria-se dos outros. Já não amava – fechava-se, num turbilhão de corridas e amores. Já não se ouvia, nem ouvia ninguém. Usava os sentimentos como quem amarrota uma folha de papel.

Voltei a encontrá-la, num redopio de fama, procurando auditório e público. Ouviam-na sem a escutarem, lisonjeavam-na sem a apreciar. Tinha olvidado o passado e sabia-se bem.  

Eu é que nunca percebi quanta falsidade lhe cabia no olhar e quanta desilusão semeara por entre as pétalas que espalhei pelo mar.

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

segunda-feira, 30 de novembro de 2015

NOTA FINAL


Recordamos hoje o dia em que, sete autores lançaram o livro MEMÓRIAS A MIL VOZES, dando início a um processo de divulgação dos seus trabalhos que se corporizaram no blogue EVOLUIR. Este será sempre uma janela aberta a todos os que se revêem, em poesia ou em prosa, na arte de juntar as palavras e legá-las ao leitor.

Hoje iniciamos um novo ciclo e queremos contar com todos os que pretendem divulgar o que escrevem. Seremos sempre um espaço aberto, onde todos os autores podem livremente expressar-se e deixar as palavras que não querem ficar esquecidas, em folhas amarrotadas de gavetas sem história.

Publicamos de seguida um pequeno texto do livro que juntou um grupo de autores que teve um sonho e o concretizou.


NOTA FINAL

Esta sensação de termos chegado ao fim acarreta um sabor meio doce meio amargo. Mas chegámos: acalentámos esperanças, derrotas, alegrias, sucessos, desilusões, êxitos e fracassos.

Por mais estranho que pareça, carregámo-los juntos – umas vezes com um ar feliz, outras com um certo desalento, quase uma vontade de desistir. Mas demo-nos os braços e seguimos em frente, tendo em conta que em todos nós cabiam vivências únicas e singulares que só cada um saberia relatar. Pouco a pouco fomos crescendo – tal como a paixão pela escrita – e desenvolvemos ligações, elos que se entrecruzaram e nos foram completando.

Este grupo nasceu de uma reunião fortuita, num local onde nos encontrámos, por acaso, e aonde tínhamos chegado apenas para descobrir formas novas de continuar a EVOLUIR. Estávamos longe de prever que este encontro daria lugar a uma união e que desta união resultaria uma colectânea de memórias.

Recusamos o imobilismo, a inacção, o ócio, a indolência ou a preguiça. Continuamos a gostar de um café saboreado ao pôr-do-sol numa esplanada, de uma conversa gostosa em que nada se diz e de uma caminhada pelas areias douradas da nossa ria. Mas não nos permitimos passar os dias sem viver cada segundo, intensamente, com a sua especificidade própria de um tempo que é único porque nunca se repete.

Este livro não faz dos autores escritores. Mas leva os leitores a participar nas mudanças, nos caminhos, nas alterações da vida de todos ao longo de quase um século. E, queiramos ou não, envolve-nos num percurso conjunto repleto de curiosidades, recantos, privacidades e alegorias. É por isso que não necessitamos de convidar ninguém a participar desta leitura: todos nós fazemos parte integrante dum percurso da história em que vivemos e nos revivemos.

Hoje acabámos as nossas Memorias a Mil Vozes. Amanhã estaremos de certeza noutro projeto. É que não queremos assistir a um pôr-do-sol que não volte a repetir-se no dia seguinte.


in "Memórias a Mil Vozes",Albertina Vaz, et all,©Chiado Editora,2013

domingo, 22 de novembro de 2015

O teu poema

Palmira Alvor Figueiredo 
... um poema por escrever ...

As palavras já não bastam!
Perderam o perfume
nesse exercício vão,
de descrição,
que o poeta
tentou fazer, do amor.
Restam letras estilizadas,
imagens belas,
frases caladas (ocas),
vazadas de sentimento,
des(emocionadas),
roubadas à aliteração
sem comoção, foragidas,
odiadas, rasgadas, perdidas!

Quero escrever-te o mais belo poema (de amor),
mas a fuga das palavras (que fenecem),
apaga a cor,
restando, apenas
esta folha imaculada,
abandonada,
de um poema por escrever.

domingo, 15 de novembro de 2015

A JUSTIFICAÇÃO

José Carreto Lages

Depois da vã procura de estacionamento, isento de taxa, conduziu o carro até ao parque. Entrou num lugar disponível entre duas viaturas. Não viu ninguém em redor. Suspirou ao tempo que atirava o saco na bagageira. Afastou-se para ir dar a aula na Escola onde ouviu o toque da campainha quando, em passo estugado, estava a atravessar o átrio. No parque, dobrado atrás de um carro, saiu um embuçado que, servindo-se dum afeiçoado gancho, abriu a porta e entrou na bagageira do carro. Lá encontrou o triângulo exigido pela norma rodoviária e o saco. No saco só estava um telemóvel e uma carteira de pele com os cartões bancários. Não havia dinheiro, o que ele procurava para a cocaína.
O embuçado
Em menos de uma hora ela reentrou no carro e saindo do parque, tomou a estrada habitual da sua residência.
A circular fora da cidade, o embuçado dobrou o assento traseiro e saiu da bagageira com a navalha espanhola empunhada para o corte.
- Dá-me duzentos euros. Duzentos euros ou corto-te – foi a ordem recomendada pelo fio da navalha encostada ao pescoço.
- Eh…
- Duzentos euros ou corto-te.
- Não tenho esse dinheiro – conseguiu ela dizer.
- Vais direitinha à Caixa Multibanco, invertes a marcha e é como eu mandar, okay? Como eu mandar. Nada de sinais de luzes ou corto-te o “garganil”…
 Sob a pressão de uma mão na cabeça e o fio da navalha acatou a ordem.
- Viras à esquerda, que aí, à frente, há um Multibanco. Vais devagar e paras ao lado do Banco ou vais magoar-te. Aí, aí, para… Vais ao Multibanco e trazes o dinheiro.
Ela sai do carro, como um robot. Não vê ninguém a quem se socorrer. No Multibanco faz o código devagar, e retira 100 euros. Ouve um carro a aproximar-se. Corre, colocando-se na trajectória do carro, sujeita a ser atropelada. Os travões cedem à pressão do pé, e com grande ruído o carro agacha-se e evita o embate. Dele saem, ar aziago, dois homens robustos.
- Mas o que é isto? - a senhora quer matar-se?
Ela agarra-se a um dos homens.
- Ajudem-me… ele mata-me. Ali…- apontando

segunda-feira, 9 de novembro de 2015

"OS VENTOS DE NOVEMBRO ANTECIPAM O CALOR DO NATAL"

 Palmira Alvor Figueiredo 

Deu a centésima escovadela à pelagem. Mirou, com um trejeito altaneiro e prazenteiro, a imagem que o espelho das águas calmas e cristalinas lhe devolvia. Sorriu, plenamente satisfeita de si mesma. Um toque discreto de batom e um nico de pó de arroz completavam as sombras das invejas que lhe rasgavam os olhos. Era belíssima: curvas acentuadas no perfeito limiar de uma figura esbelta e estilizada e um pescoço longo com ausência dos papos que a gravidade baixava à idade. O padrão axadrezado da esplendorosa roupagem que a vestia acentuava-lhe o andar bamboleante que, a par com a sua juventude pressurosa, enlouquecia os machos deixando-os de água no bico.

Avançou, confiante, rumo ao terreiro onde a população se ia reunir nessa noite. Sim, a sua presença iria, muito seguramente, ser notada. Provocaria ainda mais falatórios e invejas, bem o sabia, mas esse incidir de toda a atenção sobre a sua pessoa servia-lhe de lenitivo – uma vingança que se saboreia devagar, degustando-lhe bem o sabor saltitante sobre as papilas, acendendo-lhe o fogo no olhar – acalmava-lhe as chagas que as ressabiadas da aldeia lhe deixavam no seu peito farto e firme. Até a sua própria mãe se lhes juntava nas críticas:

- Não te emboneques tanto que vais acabar mal!

Já nem a ouvia. Pensava ela que queria viver a sua vida pacata, cheia de narizes ranhosos sempre a puxar-lhe a bainha da saia, sem nada mais a que aspirar que não a comezinha vida familiar, aquele vegetar de existência sem aventura nem expectativa? Não! Ela estava guardada para voos mais altos. E bem exercitava as asas, diariamente, tentando ganhar força para dar vida a essa fuga. Queria o céu cintilante de um luar estrelado de um voo livre, não esse esgravatar de terra, esse castrante catar de segurança e amparo. Não! O seu corpinho bem cuidado não seria destruído nessa social maternidade de apatias, nessa feitoria de sossegos. Bastaria quando morresse. Até lá tinha todo um mundo para descobrir para além dos limites que o populacho conhecia. Por isso se cuidava, por isso apenas debicava de uma alimentação saudável que lhe brilhava e amaciava a pele.

quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Cumplicidades

Albertina Vaz 


Uma poça de água no chão espelha as pontas esguias das árvores onde as folhas começam a rebentar. Há flores por toda a planície e sabe bem pressentir o renascimento que se aproxima. Quem dera que o sol apareça! Faz-nos falta sorrir ou fazer sorrir uma criança…
Vamos chapinhar num
charco de água
Anda, vem comigo, anda daí: vamos chapinhar num charco de água e rir quando nos molharmos e os pingos da lama nos sujarem o vestido que já não vestíamos desde o ano passado. Está frio, eu sei! Mas vamos lá, saborear a água, como quando eu era menina e saía de casa a correr – porque eu podia correr na rua, sabes – e vamos sujar os sapatos e pegar na lama e pintar a cara e fazer asneiras… Só hoje que a mãe não vê!
Anda, vem daí: vamos correr pela praia e atirar areia ao ar e sentir o cheiro a maresia e os pingos das ondas que rodopiam no mar. Vamos senti-las e lamber os braços que sabem a sal e correr, correr – espera por mim, que me dói… eu vou já! Espera aí! Que bom sentir a tua mão na minha e a outra a limpar-me o sal da água e os salpicos das ondas.
Vamos construir um castelo de areia
Vamos construir um castelo de areia: vamos fazer um grande monte e depois dar forma às ameias e fazer um fosso a toda a volta – eu sei, eu sei – uma ponte para a princesa sair ou para o príncipe entrar. Sim, vamos pôr uma bandeira lá na torre mais alta: isso, traz esse pauzito da duna e vamos fazer um desenho neste lenço. Que lindo: esvoaça com o vento. Vamos apanhar conchinhas e fazer uma muralha de rendas à volta das janelas. Olha a bandeira, parece uma nuvem branquinha a descer, a descer e a desfalecer-se lá longe no horizonte, perto do mar…
Deitarmo-nos na areia húmida? Mas depois ficamos todas ensopadas… Vamos lá, tens razão: vamos fazer tudo o que é proibido, hoje! Que lindo o céu – está cheio de nuvens! A correrem dum lado para o outro: aquela parece que sopra nas outras todas. O quê? Achas que sim? Estarão mesmo a brincar às escondidas? És capaz de ter razão…Aquela é um urso? Será? Dizes que vai a correr atrás da menina? Mas eu não vejo menina nenhuma… pois é, já não vejo muito bem! Gosto que vejas por mim: ensinas-me o que eu já não consigo ver.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Sonho de criança

Maria Jorge 

Estávamos em meados da década dos anos cinquenta.
Apesar de a aldeia estar situada no litoral do nosso país, o seu desenvolvimento era muito lento. Com uma grande área de areia roubada ao mar, as pessoas tinham de transformar os terrenos áridos em campos férteis já que daí vinha a sua subsistência. Os recursos eram poucos e lutava-se pela sobrevivência. A exemplo do restante país, havia uma elevada percentagem de analfabetismo nos adultos (principalmente as mulheres, não era obrigatório frequentarem a escola). 
Os homens, os mais corajosos, iam
em grandes barcos...
Os homens, os mais corajosos, iam em grandes barcos, por tempo indeterminado, para os mares de águas gélidas da Gronelândia e Terra Nova para a pesca do bacalhau donde regressavam quando o barco tivesse o peixe necessário; outros emigravam, na sua maioria para Terras de Vera Cruz, donde alguns nunca mais voltaram nem davam notícias; os talvez menos aventureiros dedicavam-se à agricultura e pouco mais.
Para todos, para os que iam e para os que ficavam, a vida era muito dura. 
– Bom dia Sra. Augusta. A Leninha está?
– Bom dia menina. Está sim, mas hoje está muito cansada. Sabes como é, dia que vai ao médico… e hoje foi fazer mais uma radioscopia… mas vai lá, vai lá ter com ela.
– Trago um recado da Professora Julieta.
– Entra, entra, já sabes o caminho. Se estiver a dormir… deixa-a ficar. Depois vens cá mais tarde.
Leninha, uma adolescente com tantos sonhos a povoarem a sua mente, não podia ser igual a tantas outras jovens da sua idade já que um grave problema de saúde a retinha quase sempre no seu quarto. Aquela tosse maldita não a deixava em paz e com tanta falta de forças não podia fazer o que mais gostava.
Um dia os pais levaram-na ao médico e o diagnóstico foi terrível. A tuberculose entrou na
Porque?Porquê eu?
vida daquela família de tão parcos recursos…
– Porquê? Porquê eu? – Perguntava-se a si própria.
Tinha apenas 15 anos…e os seus sonhos? Embora gostasse de poder continuar a estudar teve de ficar apenas com a instrução primária, porque os pais, que viviam exclusivamente da lavoura, não tinham possibilidades económicas; gostava de andar de bicicleta, jogar à macaca, conviver com as jovens da sua idade; bordar; fazer o seu enxoval e sonhava… sonhava com o seu príncipe encantado. Enfim, queria ser igual a tantas jovens da sua idade…mas não podia. Porque haveria de ser diferente?

domingo, 27 de setembro de 2015

Uma tela em branco

Albertina Vaz 


Peguei numa folha – em branco. Dolorosamente branca. Sem um risco, um traço, uma letra.

Era uma folha como outra qualquer. Nem grande, nem pequena. Nem lisa, nem machucada. Uma folha em branco à espera de palavras, ou de traços, ou de cores. E nela falava o silêncio e o silêncio não tinha cor.

Então pintalguei-a de azul e inundei-a de mar. E o mar era uma paz sem limites e uma mancha azul que se alastrava no horizonte. Depois colori-a de verde e fiz nascer um campo de erva fresca, onde duas crianças saltitavam correndo em direção ao infinito.

E fiquei feliz com a minha folha. Já não era uma folha em branco.

Depois procurei os sons e enchia-a de cantos e de poesia, Dois bancos de jardim. Um casal de mãos dadas e as promessas de amor acarinhadas pela esperança duma vida diferente.

A seguir fui procurar os cheiros e soube-me a erva cidreira e a rosmaninho e fiz uma canção de roda com as crianças que me ajudavam a caminhar e soltavam gargalhadas estilhaçando o silêncio e quebrando as barreiras.

E nela falava o silêncio.
Era naquele momento uma folha perfeita – havia o mar, um campo verdinho, duas crianças a brincar, um casal a sonhar e uma avó a reviver. Não faltava lá nada. Era uma folha cheia de vida que se soltara do branco e se enchera de cor.

Um dia porém vieram uns senhores que sabiam de tudo e ditavam as leis. Foram eles que escreveram as palavras e foram apagando as cores. O campo deixou de ser verde porque eles não queriam que fosse cultivado. Os jovens disseram-se adeus, num abraço profundo, e partiram cada um em direções diferentes. E as lágrimas que se soltaram foram inundando os campos e salgando os rios e secando as fontes. As canções já não falavam de esperança e as crianças deixaram de cantar.

Fiquei a olhar a minha folha e quis pintar os pés da avó mas só consegui seguir-lhe os passos, quis descobrir o seu olhar mas só descortinava a sua mente, só e envelhecida, quis pentear-lhe os cabelos mas apenas consegui ler-lhe o  pensamento, quis abrir a sua boca mas só calei as suas palavras, quis pegar nas suas mãos e apenas encontrei o seu destino, quis beijar o seu olhar mas já não ouvia as palavras.

Lavei meu rosto numa gota de orvalho – voltei ao início. Tenho de começar tudo outra vez. 

Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal

terça-feira, 8 de setembro de 2015

A necessidade obriga…

José Luís Vaz 


Numa aldeia, lá perdida no meio da serra, habitada por algumas, muito poucas, famílias, as pessoas viviam do sustento que a terra lhes proporcionava. Era normal criarem animais que, ou vendiam ou abatiam para a sua alimentação. Não havia casa que não tivesse um
...bicavam do chão
bom galinheiro, que, como tal, só funcionava durante a noite, pois durante o dia, galinhas, galos e frangos bicavam do chão tudo aquilo que encontravam. Ao escurecer, era certo e sabido, todos os galináceos recolhiam ao seu poleiro acocorando-se até à madrugada do dia seguinte.
De vez em quando, havia grande alarido no povoado com o alvoroço num ou outro galinheiro, altas horas da manhã. Claro, alguém a tinha pregado: ou raposa ladina perita na arte, ou algum amigo do alheio aproveitando o sossego nocturno, subtraía um ou mais bicos ao galinheiro visitado.
No dia seguinte, não se falava noutra coisa. Para uns, só podia ser raposa matreira, de tão rápido o assalto, para outros, “sabe-se lá…”, isto e aquilo, e ficava a pairar no ar uma desconfiança nunca revelada.
O sacristão da terra, o mais letrado, a seguir ao padre da freguesia, andava desconfiado e montou a sua própria investigação, sem dar parte de fraco, nem dizer nada a ninguém.
Começou a aperceber-se que um jovem rapaz, volta e meia, ia à igreja e pregava-se de joelhos à frente de uma imagem de Santo António com o Menino Jesus ao colo. Ali permanecia um bocado e vinha-se embora sempre muito bem-disposto.

sábado, 29 de agosto de 2015

Filhos de pais sem filhos

Albertina Vaz 


Encontrei-o num estado deplorável: triste, acabrunhado, deprimido. Mal me olhou, as lágrimas soltaram-se numa torrente infinita. Nem sabia o que lhe havia de dizer. Aquelas palavras de circunstância, aquelas frases que não dizem nada desprenderam-se-me, sem grande convicção. Afinal o que se passara? Seria tão grave assim? Não haveria nenhuma solução?
...do primeiro sorriso, do primeiro
dentinho, dos primeiros passos
Sentei-me a seu lado tentando consolar-lhe uma dor que não sabia donde provinha mas que pressentia ser de uma dimensão sem medida.
Lentamente, soluçando, foi-me falando das suas recordações, do primeiro sorriso, do primeiro dentinho, dos primeiros passos. Dos passeios intermináveis que davam juntos, das conversas que mantinham ao nascer do sol quando se levantavam cedinho e caminhavam à beira mar escutando o barulho das ondas e o silvo das sereias. Das mágoas que desabafavam e das alegrias que partilhavam.
Dos dias em que o ia buscar à cama e o destapava para o acordar, das vezes que rebolavam misturando-se na areia da praia, das gargalhadas que trocavam juntos, das corridas que o obrigava a fazer e até daquela queda quando um dia o atirara – sem querer, claro – contra um carro à beira do passeio. Dessa vez quase ia partindo a cabeça mas até isso se tornara uma diversão. Atiravam-se um por cima do outro, faziam-se intermináveis cócegas e riam – riam muito.
De quem falava afinal?
Estava eu própria a ficar perturbada – falava-me de certeza de alguém muito próximo com quem convivia todos os dias e partilhava muitos segredos. Mas eu sabia que ele nunca tivera uma companheira, namorada ou amiga. Sabia que uma infância difícil e uma juventude perturbada o afastaram da família e quebrara as pontes que o haviam ligado ao outro lado. Sabia-o muito introspetivo, senhor de si mesmo, metido no seu canto, com grandes dificuldades de comunicação, sem grandes amigos e poucos conhecidos.
De quem falava afinal?

domingo, 16 de agosto de 2015

Uma vida!

José Luís Vaz

 Estou aqui, há tantos anos, que já nem me lembro da quantidade de nomes que já tive. Desde Carlota Joaquina a Raul Rego passando por rua da Esperança e outras, tudo me têm chamado. Conforme a onda, assim me tratam: não há dinheiro, fico cheiinha de buracos, vem graveto, escondem-me logo as misérias. É a minha sorte, comer e calar e, ainda por cima, ser pisada por toda a gente.
Quando nasci, tenho uma vaga ideia de que era mais curta, havia menos gente e precisariam menos de mim… levava o tempo incomodada com a poeira que era quase permanente, porque, por aqui, eram burros, cavalos, bicicletas, motas, eu sei lá, tudo o que mexia por aqui tinha que passar.
...eu é que sou o centro das atenções.
Mais tarde, lavraram-me, como quem prepara a terra para uma sementeira, e toca de me encherem de pedrinhas. Ainda pensei: querem fazer de mim uma pedreira...mas não, a seguir, taparam-me todinha com alcatrão a abrasar e eu a aguentar… A partir daí ladearam-me de prédios, uns altos, outros baixos, bonitos uns, aberrantes outros, mas a rainha sou eu, eu é que sou o centro das atenções.
Se eu fosse a contar tudo o que ouço, nunca mais me calava. Ainda outro dia fiquei aparvalhadinha de todo com uma conversa entre mãe e filha. Dizia a mãe: não entendo, o teu emprego é das nove às dezoito horas, e tu, tornou-se num hábito, chegas sempre tarde e a más horas a casa.
- Ó mãe, estou farta de te dizer que não posso virar costas ao Sr. Dr. Ele, lá no escritório, tem sempre muito que fazer, e, para além de ter que o ajudar, não estamos em tempos de facilitar. Sabes muito bem o que me custou arranjar este emprego!

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Vestida de andorinha

Elsa Borges 

Naquela noite nem dormira. Nunca a escuridão me incomodara tanto. Como desejara viver em liberdade, correndo pelos pastos floridos atrás das ovelhas e das cabras, acompanhada do Fiel que, de orelhas no ar, mal eu assobiava, parecia uma flecha a correr ao meu encontro. Viver assim para sempre. Sem pressas e sem ambições de vida de cidade.
Como ia sentir a falta de chapinhar no ribeiro, sacudindo a terra dos tamancos, quando ao cair da tarde regressava com o rebanho.
Havia também aquele amor escondido, no fundo do meu peito, calado e só meu, pelo filho do vizinho, que todas as manhãs, bem cedo, partia apascentando os seus animais. Os jogos que fazíamos, as corridas com os cães, em que o meu Fiel batia sempre o Malhado. E, sobretudo, havia aqueles doces momentos em que ele me oferecia ramos de flores apanhadas no monte e atados com nagalhos.
Não havia dúvida, estava mesmo de partida. Quando me levantei, topei logo na cesta de palha em que a minha mãe tinha metido meia dúzia de trapos, uns tamancos novos, um xaile e uma capa de burel, que havia de usar lá, para onde me mandavam, na companhia da minha tia.
Sabia que ia servir para a mesma casa em que, a irmã mais nova da minha mãe, tinha servido desde os doze anos.
...o lenço atado no queixo, a cesta
na mão...
– Ainda tens sorte – dizia-me minha mãe – A tua tia quando foi servir tinha menos dois anos do que tu. Não tinha lá ninguém conhecido. Comeu o pão que o diabo amassou, para chegar onde chegou. Tu também podes vir a ser uma senhora.
A minha mãe devia querer consolar-me. Mas esta era uma forma assustadora de o fazer. O que quereria dizer com “o pão que o diabo amassou”? Devia ser algo terrível!
Estava sentada no canto da mesa, com a malga das sopas, pensando que esta era a última vez que ali engolia o almoço. A minha garganta tapou, o que tinha na boca veio fora, quando a minha tia, já com o lenço atado no queixo, a sua cesta na mão, apareceu para me buscar.
– Anda rapariga, despacha-te – balbuciou ela numa voz tremida que revelava comoção e pena – Olha que a carreira está achegar. Nós não somos nenhumas fidalgas, ela não espera.
Levantei-me, tentei pegar nos meus trapos. As minhas pernas tremiam e foi quase ao empurrão que a minha mãe me pôs para fora de casa:
– Vai, cachopa, faz-te à vida, ou queres viver nesta miséria para sempre?

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Vermelha, esguia, fora de uso

Albertina Vaz

Queira ou não queira, caí em desuso. Já tive nas minhas mãos os segredos de tantos e de todos. Era vê-los, em fila indiana, aguardando a sua vez, desesperados com o tempo de espera, ali, à minha volta, como se eu pudesse resolver todos os problemas do mundo.

E eu escutava-os com muita atenção, permanecendo em silêncio porque me era exigido o silêncio, guardando segredos, escutando anseios – grandes e pequenos, palavras sem nexo, angústias urgentes.

Vermelha, esguia, fora de uso
Podia contar-vos mil e uma histórias de gente que me procurava para comunicar. A do jovem a quem faltara a mesada que os pais não tinham podido enviar, a da mãe que tinha saudades da filha que já não via há muito, a da filha que só queria ouvir a voz dum amigo, a do amigo que pretendia partilhar sentimentos.

Eram tantos que precisavam de mim para encontrarem quem queriam e ouvir quem não estava ali e de quem sentiam falta. Sentia-me útil e desejada, sentia que tinha uma função importante e necessária. Até que um dia fui ultrapassada por esse instrumento indesejável que passou a fazer parte da vida deles. Deram-me até outro formato mais moderno, mais apelativo – deixei de ser fechada, de ter porta e janelas pequeninas. Passei a ser arejada, apenas com o indispensável para um recado rápido, sem sentimentos nem anseios.

E fomos sendo afastadas dos espaços públicos. Dos milhares que se espalhavam pela cidade restam meia dúzia de outras iguais a mim, sem préstimo e sem jeito. Brevemente virão retirar-me daqui e passarei a ser mais um lixo, no monte de lixo das coisas inúteis. Eu, que já fui a cabine telefónica mais frequentada desta cidade.

                                                                                          Albertina Vaz ©2015,Aveiro,Portugal
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...